segunda-feira, 13 de julho de 2009

Funk: preconceito e função social

“O funk é uma coisa ridícula”. Foi com essas palavras que o incipiente cantor e compositor brasileiro Diogo Nogueira, filho do saudoso sambista João Nogueira, definiu o gênero musical em questão. É notória, atualmente, a volumosa carga de críticas que o funk vem recebendo.

Naturalmente crítico, o gênero tem sido distorcido nos últimos anos. Desde que passaram a ser financiadas por determinadas facções criminosas (como, por exemplo, Comando Vermelho, no Rio de janeiro, e PCC, em São Paulo), muitas músicas do gênero mudaram o norte para o qual originariamente estavam voltadas e passaram a apoiar, por meio de líricas violentas, o tráfico de drogas e outras atividades ilícitas.


De modo análogo surgem as canções de funk que fazem apologia à sexualidade, como pode ser comprovado ao se fazer análises de músicas como “Dança do créu”, de autoria de MC Créu. A lírica, a todo momento, traz à tona a sexualidade. Dançarinas trajando roupas desinibidas executam constantemente movimentos sensuais e dão a tônica da canção. O ritmo dançante é envolvente e comporta um erotismo que lhe é peculiar.

Não se pode, todavia, julgar todo o gênero com base em apenas alguns exemplares da espécie. Por mais que o todo seja formado por partes, ele não se traduz nas partes. Bem como o funk, outros gêneros musicais também apresentam canções que não correspondem ao que é todo o gênero. Não se deve encaixotar. Não há porque agrupar todas as canções num mesmo bloco e julgá-las como um todo homogêneo; elas não o são e nem têm esta pretensão.

Há exemplos de descompasso inclusive relacionados à famigerada Música Popular Brasileira (MPB). Caetano Veloso, por exemplo, em “Voa, voa pereca” canta: “Coitada da perereca dela/ É tão bela, é tão bela/ Coitado do meu passarinho/ Tão sozinho, tão sozinho”. É inegável a importância e a contribuição de Caetano Veloso para os cenários musical e político nacionais. Tal música, contudo, não reflete o que seja a MPB, e nem por isso contesta-se a qualidade da música popular nacional, pois se reconhece a inferioridade da individualidade perante a grandiosidade do conjunto.

O que dizer então de Roberto Carlos? Um dos maiores ícones da música brasileira – senão o maior –, que, na década de 60, versou: “Que o calhambeque, bi-bi/ O broto quis andar/ No calhambeque/ Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...”.


O funk não é somente apelo sexual, apoio a facções criminosas, apologia ao consumo de drogas. É mais do que isso. O funk possui um teor contestatório, é uma mostra de insatisfação e é a expressão de uma comunidade. Em analogia à história grega, o funk é o Cavalo de Tróia da sociedade contemporânea. Assim como o mecanismo criado por Odisseu, o funk tem como função penetrar nas sólidas barreiras sociais e destruir as estruturas internas que dão sustentação a esta comunidade dissimulada e hipócrita.
O gênero aqui tratado, bem como outros estilos musicais como, por exemplo, o rap, visa expor a situação em que um grupamento humano se encontra, expondo seus problemas, suas expectativas e necessidades. Tem o intuito de mostrar que, especialmente nas comunidades mais carentes, há pessoas muito capazes e que possuem necessidades e desejos como todas as outras, como pode ser evidenciado na lírica “Rap da Felicidade”: “Minha cara autoridade eu já não sei o que fazer/ Com tanta violência eu sinto medo de viver/ Pois moro na favela e sou muito desrespeitado/ A tristeza e alegria que caminham lado a lado”.

Será que lidaremos com o funk do mesmo modo como tratamos o samba em tempos passados? Vamos negar sua importância e renegá-lo ao segundo plano do cenário cultural nacional? Vamos novamente, bem como fizemos com o samba, tachar o funk como música da periferia? Eis a questão.


Por Ludwig van Beethoven,
compositor alemão que curte um batidão frenético.

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Bom, na minha humilde opinião, nenhuma expressão (que não envolva violência física) deve ser reprimida de imediato. Contestada e questionada, talvez. Ainda mais quando é feita através da música, que eu, particulamente amo. Embora, o papel do funk vem retratar o cotidiano da favela e não cabe ao seres exteriores a ela: julgar, delimitar, reprimir. O estilo musical utilizado para expor o discurso desses indivíduos são altamente ligados às suas relações com o meio em que vivem. Portanto, só eles sabem "como" e "para que" fazer.
    Mesmo assim, eu não sou simpática ao funk por questões musicais. Acho que não só o funk, como outros estilos, caíram na graça da publicidade. Pura questão de marketing! A música não deveria priorizar principalmente o fator comercial. E infelizmente é o que acontece nos dias de hoje!

    Agora chega, falei demais! rs

    Parabéns, ótima postagem!

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  3. Perfeita a postagem!
    "Há exemplos de descompasso inclusive relacionados à famigerada Música Popular Brasileira (MPB). Caetano Veloso, por exemplo, em “Voa, voa pereca” canta: “Coitada da perereca dela/ É tão bela, é tão bela/ Coitado do meu passarinho/ Tão sozinho, tão sozinho”. É inegável a importância e a contribuição de Caetano Veloso para os cenários musical e político nacionais. Tal música, contudo, não reflete o que seja a MPB, e nem por isso contesta-se a qualidade da música popular nacional, pois se reconhece a inferioridade da individualidade perante a grandiosidade do conjunto.

    O que dizer então de Roberto Carlos? Um dos maiores ícones da música brasileira – senão o maior –, que, na década de 60, versou: “Que o calhambeque, bi-bi/ O broto quis andar/ No calhambeque/ Bi Bidhu! Bidhubidhu Bidubi!...”."

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  4. Meu único problema com o batidão carioca é o fato dele ter roubado o nome do que é, na minha opinião, o melhor ritmo de todos. James Brown deve se revirar no túmulo. Aqui no Brasil, quando eu digo que gosto de funk, preciso explicar... e muita gente nem leva a sério.

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  5. Postagem de ótima qualidade!

    O funk é muito estigmatizado, por isso é difícil tratar desse assunto com uma dose sadia de imparcialidade (como foi feito), afinal, o tempo todo somos levados pelos meios de comunicação a crer que tal ritmo é somente uma materialização da violência e um estímulo à pornografia. Nos apresentam apenas um lado da moeda, nos mostram apenas o querem que conheçamos, mas não é assim que deve ser... Por isso, mais uma vez, parabéns pela análise ampla, pois só seremos capazes de entender elementos de nossa sociedade, como o funk, quando analisarmos tais elementos como um produto complexo de uma sociedade complexa, sem visões estigmatizadas. Ah, só pra constar, não curto muito um batidão.

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  6. Deviam exilar os funkeiros na ilha de São inferno! ritmo nojento, desconfortante, faz apologia a traficantes imundos e desgastam ao máximo a imagem da mulher brasileira, que já não anda bem com esse carnaval erótico. Se tivesse eu muito poder acabaria com essa putaria e destruiria o funk para sempre.

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