domingo, 17 de janeiro de 2010

Punindo o corpo não se educa a mente.

Conversava com colegas dia desses. Bate-papo casual. Após falarmos sobre assuntos universitários surgiram naturais dois temas: violência e práticas combativas a este comportamento. Eis que um deles nos apresentou uma experiência bem pontual: em determinada nação, durante certa época (quando começava a estourar o movimento gângster naquele país), tornou-se comum a mutilação de uma das mãos dos sujeitos culpados por roubos. Os reincidentes perdiam a que lhe sobrava. Além de critério identificador, a perda das extremidades dos braços servia como alerta para os outros membros da gangue. A eficácia foi garantida, segundo o colega.
A grande questão, contudo, não me parece girar em torno da eficiência ou não do comportamento, mas sim ao redor da própria natureza da atitude e também acerca dos resultados a serem obtidos com tal postura. Numa primeira abordagem, é fundamental, e, de certa maneira, evidente a constatação de que se emprega um mecanismo violento para coibir a violência. O que torna a punição, no mínimo, antilógica. E nem venha com essa de que “os fins justificam os meios”. Não. Não justificam. Procedimentos intermediários adequados são tão importantes quanto o caráter do objetivo a ser alcançado.



É notável o alto grau de funcionalidade e a assimilação instantânea provocados por uma dose extra de violência. O caso doméstico talvez seja o mais palpável para servir como exemplo: uma palmada generosa em uma criança que por algum instante foi desobediente soluciona, de forma simples e cômoda (para o agressor), a situação importuna. É este o ponto. Os sujeitos que são responsáveis pela educação de outrem (o Estado que decepa a mão do meliante ou o mero pai de família que esbofeteia o filho), optam, na maioria dos casos, pelas resoluções menos trabalhosas e mais imediatistas, que quase nunca são as melhores opções a serem feitas.



Chamo a atenção para a necessidade do diálogo, da instrução, e não do mero condicionamento mental associado à punição física e/ou psicológica em caso de descumprimento de um dever preestabelecido. Contudo, a comunidade humana não abre mão do terror. Talvez até sinta prazer mediante o desespero alheio.
A humanidade dos tempos modernos já adquiriu maturidade suficiente para compreender que o respeito é mais eficaz que o medo porque é permanente. A obediência por medo faz-se atuante enquanto perdurar a situação amedrontadora. É como o garoto que sabe apenas somar laranjas, mas não maçãs. Ele foi condicionado a isso. Educamos pessoas da mesma forma como adestramos cães: se desobedecer apanha.

Punindo o corpo não se educa a mente, apenas a condiciona a determinadas situações.

Trecho extraído da carta aberta de Leopoldo II, Rei da Bélgica, destinada ao povo do Estado Livre do Congo.

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