segunda-feira, 22 de março de 2010

Toda a nudez será castigada, em Vitória

No dia sete de março fui ao museu ferroviário assistir a uma palestra de José Celso Martinez Corrêa e José Miguel Wisnik. Uma dupla que prometia. O assunto da palestra era a superação da crise, obviamente o sentido de crise no contexto referido é amplo e tratava até dela como momento de florescimento das potencialidades humanas.


A palestra começou logo depois do almoço, o local estava cheio de gente e eu cheio de expectativas. De cara a dinâmica já foi outra: fizemos um círculo em volta dos dois, enquanto eles bebiam vinho e cantavam. Para poupar trabalho já vou avisar que eles beberam e cantaram durante toda a palestra, intercalando seus discursos a ótimas canções.

Até aí tudo bem. A coisa mudou de figura a partir de então. Um encadeamento de surpresas se sucedeu. Como pude perceber naquele dia o povo de Vitória não gosta de ser surpreendido.


A palestra fluía bem, até que Zé Celso perguntou a um misterioso rapaz que o acompanhava - que, além de ter servido o vinho para os dois e para ele mesmo, chegou a fazer uma fala no meio da palestra - se ele faria uma cena de uma peça teatral. Ele concordou, e se revelou ser um ator. A peça, de acordo com Zé Celso, parecia bastante ousada, particularmente uma de suas cenas. Sim, era exatamente essa a que o rapaz faria naquele momento.


O rapaz foi para o meio do círculo e plantou bananeira. Eu não sabia o que viria a seguir, mas continuei a me perguntar o mesmo quando Zé Celso pediu para alguém retirar as calças e as cuecas do rapaz, ou como Zé mesmo disse "calcinhas".

Espero que o leitor (caso haja algum) perceba que passamos rapidamente de "vinho + canções" para "bananeira + nudez". Alguns dos presentes não gostaram muito disso. Zé Celso não se importou e chamou o câmera para dar um close no (os mais sensíveis me desculpem a palavra, mas não há outra que se encaixe melhor no referido momento) cú do rapaz. Acreditem, foi aí que tudo começou.


A partir daí ao cú do rapaz foram somados vinho, dedo e boca do Zé Celso. Cenas que, não vou mentir, me surpreenderam. E muito. Mas agora vem o que é realmente surpreendente. A essa altura, das mais de cem pessoas presentes do início da palestra, só restavam umas setenta cabeças. Bem menos da metade. Vale lembrar que essa é uma estimativa duvidosa, cuja fonte é minha mente que prestava mais atenção no que acontecia no fatídico círculo.


A parte realmente surpreendente a que me referi ocorreu depois do término da palestra. Ela repercutiu de maneira fortemente negativa. Quase todos com quem conversei não apenas não gostaram da palestra, mas também a classificaram como ruim e errada. Mesmo as que não estavam lá. Louco, pervertido, desrespeitoso, foram alguns dos adjetivos que ouvi para classificar Zé Celso.

- Deveriam avisar que a palestra continha nudez. - Muitos me disseram.

- Foi um ato de perversão. - Classificaram outros.

- Ele não podia ter feito isso. - Alguns até mesmo decidiam o que cabia ou não na palestra. Agora não é mais o autor que escolhe como compor sua apresentação. Foi bom saber disso.

Todos com os quais eu falei ou ficaram durante a palestra por livre e espontânea vontade ou não foram. Não cheguei a conversar com alguém que havia saído na metade. As reações mais extremadas foram daqueles que não foram.

Muitos dos que não gostaram disseram que "aquilo" estava errado. Na palestra, mesmo enquanto meio de expressão artística, não poderiam acontecer aqueles atos. Muitos confundiam gostar e não gostar com certo e errado.

Ok, o indivíduo se sente desconfortável com nudez ou com qualquer uma das coisas ali feitas. Ele poderia sair, como muitos o fizeram. Zé Celso não prendeu ninguém lá.


Pelo que pude perceber o problema não foi com o indivíduo ver a nudez (já que ele não era obrigado) ou o que se seguiu, foi ele saber que tudo isso ocorreu e alguém viu, e mais, ocorreu em seu solo. Alguém veio de fora macular está terra santa. "Que ele faça suas loucuras longe daqui".


Meu ponto é: em geral as pessoas não gostaram do ato, por diversos motivos, por isso o classificaram como errado. Isso é um absurdo. Porém um número assustador acha que isso faz sentido. Não creio ser necessário explicar o motivo dessa perspectiva ser altamente perigosa.

Não preciso acrescentar que o fato de eu ter apreciado a palestra foi motivo de cólera, piada e total incredulidade por muitos daqueles com os quais conversei.

O fato é que Zé Celso se equivocou, Vitória não está em 2010 ainda, está em 1960, por aí. Ele disse que voltar aqui dependeria de nós (pessoas de Vitória). Se essa for mesmo a condição ele não volta. Mas se ele voltar que fique esperto. O povo daqui não gosta de surpresas.