segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

É a redenção, sr. I

Pois é, terminou mais uma cerimônia do Óscar. Sim, podem torcer o nariz e dizer que é um prêmio que não alcança o valor artístico que o cinema pressupõe ('não porque os europeus sim, esses fazem arte, Roliúde é balela. Ah... Godard... Fellini...'), mas eu assisto ao Óscar. Gosto. Acho 'interessante'. É todo um show à parte, um outro filme. Aquela coisa da injustiça, dos favoritos e da politicagem. Nesse prêmio essas são palavras que frequentemente vigoram nas conversas dos espectadores - como eu. 'Olha tem dois: um que eu quero que ganhe e outro que eu acho que vai ganhar'. Eu gosto.


Enfim, essa cerimônia ficou marcada pelo caráter previsível, não me vem à cabeça uma surpresa. Todos vieram mais ou menos preparados pelos prêmios anteriores (Golden Globe e SAGA basicamente deixaram tudo muito claro). No entanto, pensemos um pouco: até aí nada de novo. O Óscar não é conhecido pela ousadia, e sim pelo pragmatismo e segurança dos velhos judeus da academia. Então qual o meu ponto? Meu ponto é o dos interessantes filmes reais paralelos à premiação. Algo que também sempre ocorre, mas que esse ano foram, pelo menos para mim, surpreendentemente interessantes.

Tivemos a polêmica(?) circundando o fato de 'Waste Land' não entrar na 'competição' como uma produção do Brasil, e nós brasileiros temos uma longa lista de ressentimentos com o Óscar. O filme nem levou - não que seja melhor ou pior do que aquele que levou, só constatando.

Falando em levar, algumas premiações foram, quando pouco, esquisitas. Melhor Trilha Sonora - 'A Rede Social'? Isso tem razão de ser? Muitos pensam que não. Olha, eu gostei da música. Antes de ter visto o filme me falaram que a música era fraca. De toda a forma eu gostei. Entretanto, acho que 'A Origem' deveria ter ficado com a estatueta.

Agora o prêmio que eu verdadeiramente torci na noite foi o de Melhor Filme Estrangeiro. Cara, como eu queria ver o grego 'Kynodontas', ou 'Dogtooth', premiado. O filme é uma pérola. Uma ótima idéia executada com primor. As atuações são memoráveis. Era a chance desse filme ganhar um novo patamar de fama internacional e ser visto por mais gente. Ganhou um prêmio em Cannes, mas quem se importa com ele, não é mesmo?


Mesmo com todas as qualidades eu sabia que seria altamente improvável, o filme é muito diferente, muito ousado e cheio de um sopro de surrealidade que não agrada muito à academia. Muito abstrato. Melhor entregar o prêmio para um filme mais, digamos, 'palpável'. Se contiver um apelo político melhor ainda.

Agora, meu amigo, sr. I, você entra na conversa. Eu não tinha lhe esquecido. O negócio da redenção, certo? O filme O 'Discurso do Rei' foi descrito por você como "aquela velha história da redenção". Você não gostou muito. Na verdade eu fui o único com o qual eu falei pessoalmente que gostou muito dele. Sei lá, esse lance de drama histórico inglês me cativa, ou seriam as atuações rigorosas que estão presentes de maneira tão vasta nesse gênero (e esse é um caso que segue a regra) que me fascinam?

De qualquer maneira 'O Discurso do Rei' foi o filme resumo dessa cerimônia. O filme que veio como a vitória de toda uma escola de cinema e de todo um anseio tradicionalmente embutido no Óscar. Não estou dizendo que o filme é um disco repetido, muito pelo contrário, percebo nele um fórmula já usada a exaustão retomada e modernizada para lutar mais um dia. O filme encontra sua própria redenção ao fazer de forma, diria eu, excelente algo que todos davam, e até deram, como batida. Não é o objetivo da postagem analisar o filme, talvez eu o faça em outra oportunidade (a quem eu estou enganando, eu não farei).

Veja bem, de um lado tínhamos o furacão Facebook, um conto contemporâneo sobre amizade, traição e desencontros, que estava engolindo tudo. O filme era cheio de jovens, atuando em uma história profundamente... jovem. Tudo muito bem feito. Com redenção ou não.

Eis que surge 'O Discurso do Rei'. O impávido herói à moda antiga. Atores consagrados, um roteiro previsível, a boa e velha bela lição. Tudo estava ali e a batalha estava deflagrada. Outra história antiga, a da confluência do novo e do velho, algo acontece quando o mar encontra o rio. Os japoneses adoram isso, a tradição e seu embate com o novo. E a tradição, um senhor idoso marcado por cicatrizes que doem em dias de chuva, tem sempre a nossa condescendência. O jovem ainda tem que sofrer muito até poder botar os pés para cima. E o velho rei botou os jovens bilionários no bolso e levou a estatueta. Defendendo, assim, a honra posta em cheque.

Todos sabemos como o Óscar funciona, é uma fábula, cuja moral é a redenção. Uma redenção para poucos, sr. I. Um redenção que nunca sai de moda. Não que isso seja ruim, na minha opinião rende bons filmes.


O Polvo,

que não entende qual foi a graça de colocar 'Toy Story 3' concorrendo a Melhor Animação sendo que ele já concorria a Melhor Filme. O que isso quer dizer?


PS: Não falarei dos apresentadores da cerimônia. Não há muito o que falar sem chover no molhado, acredito.

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