segunda-feira, 18 de julho de 2011

God's Lonely Man

O texto que escrevo a seguir não é uma crítica da obra como um todo; resume-se a abordar, de forma simplista, a construção da imagem do protagonista.

Chega a ser absurdo o apreço que tenho por "Taxi Driver (1976)". E é afeto correspondido. Cada vez que assisto ao filme, Travis Bickle (Robert De Niro) me cativa ainda mais. É sem dúvida um dos personagens mais fascinantes da história do cinema mundial. É confuso, deslocado, paranóico e redentor, necessariamente nesta ordem.


Taxi Driver cativa porque é uma obra que trata, principalmente, de angústia e de solidão. Deslocamento. Sentimentos que, embora comuns, são difíceis de serem expressados. E Travis os expõe com maestria. Mais que escancarar o sofrimento dele, o protagonista, ao longo do filme, torna-te cúmplice dos atos por ele praticados. É esta, ao meu ver, a pedra de toque da obra. No decorrer do filme não faltam exemplos em que Travis extrapola o socialmente aceitável ou adota comportamentos absolutamente contraditórios e, mesmo assim, as pessoas que assistem ao filme se posicionam a favor dele. Quando o taxi driver, por exemplo, convida Betsy para ir ao cinema assitir a um filme pornográfico e a dama se retira da sala de exibição, os espectadores, embora constrangidos com a situação, não condenam Travis pela escolha. Muito mais que censura e reprovação, Travis Bickle recebe complacência, condescendência.




Tendo em vista a maneira com que a trama foi elaborada, a explicação para tanta benevolência com Travis reside, possivelmente (repito, possivelmente), no fato dos posicionamentos do protagonista sufocarem quaisquer outras opiniões. Os outros personagens não têm vez no mundo de Travis Bickle, é um sujeito irredutível. Tanto é assim, que o filme não disponibliza grandes momentos de análise da postura de Travis. Não existem grandes embates ideológicos na película, simplesmente não há um debate de ideias. Inexiste algum fator suficientemente forte para se contrapor a conduta do protagonista. Estar a favor de Travis é a única via que Scorsese oferece a quem assiste ao filme. Não há escolha. Aí é que o filme é essencialmente interessante. O espectador, sob meu ponto de análise, torna-se cúmplice de um protagonista que tem repulsa, entre outros, por negros, prostitutas e drogados, que, em simples consideração, são mais vítimas de uma sociedade podre do que contribuintes para tal podridão. É partidário, pelo que o filme deixa subentendido, de políticas de extermínio. Repugnante.




Travis encanta sem ser encantador. Eis a mágica de Scorsese e de Paul Schrader (roteirista). A solidão, o desencontro do protagonista consigo mesmo e a contradição aguda de que sofre, somados à redenção que o personagem principal busca (libertar uma prostituta-criança do domínio de um cafetão), cativam o espectador. É essa mágica, a da conivência, a da tolerância, que impera ao longo do filme. Travis Bickle, apesar de alguns desvios de caráter absurdos, pode sempre fazer o que quer, afinal de contas ele é o "homem solitário de Deus" (God's lonely man).



O Polvo,


que dá sinais de vida e pergunta: "You talking to me?"

Um comentário:

  1. O último que sair apague a luz!

    Puxa, galera! Este blog costumava trazer postagens bem interessantes, principalmente sobre cinema. Hoje, contudo, parece o polvo Paul: está morto.

    Tá na hora de reagir, moçada!

    Is there anybody there?

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