sábado, 28 de janeiro de 2012

Onde os fracos não têm vez

- “E Frank?”

- “O Frank nos mandou.”

- “Trouxeram um cavalo pra mim?”

- “Parece que temos um cavalo a menos.”

- “Não. Você trouxe dois a mais.”

video


É esse o diálogo da cena inicial de Era Uma Vez no Oeste (Once Upon a Time in the West), de Sérgio Leone. Três cowboys aguardam, numa estação deserta, a chegada de um trem que traz o indesejado alvo. Após longa espera, a locomotiva chega e os três pistoleiros se posicionam para recepcionar o Gaita (Charles Bronson). Depois de poucas palavras, muita tensão e um punhado de balas a questão está resolvida.


Os filmes de faroeste me fascinam justamente por conta dessa simplicidade. Fosse outro o gênero da película, esse trecho do filme poderia se estender por intermináveis minutos: expondo, por meio de flashbacks, as razões que levaram os pistoleiros até aquele estágio; contando a história de Gaita até aquele momento; ou simplesmente diluindo a cena através do acréscimo de falas às personagens. Woody Allen, por exemplo, faria dessa passagem um tormento, com discussões existenciais e aquela eterna expressão de cão abandonado. Mas não, o faroeste não suporta isso. Os problemas são resolvidos quase sempre na mesma velocidade em que surgem e habitualmente da forma mais pragmática possível. Não que os diálogos mais profundos e as divagações filosóficas não tenham lá o seu valor, mas às vezes as coisas simplesmente são como são, sem a necessidade de se explicar os porquês. No caso acima exposto (de Era Uma Vez no Oeste), por exemplo, não importa por qual razão os pistoleiros pretendem matar Gaita, até porque não há diálogo capaz de solucionar o imbróglio: o homem do faroeste é irredutível e, por muitas vezes, insensível.


Outro aspecto cativante no cinema western é o clima de tensão, que prende o espectador a todo instante. Qualquer coisa, verdadeiramente qualquer coisa, pode ser estopim para uma chacina. A vida vale muito pouco lá pela região do Texas. Seja na entrada da igreja, seja num boteco de chão de madeira, basta uma palavra mal colocada ou um olhar enviesado para que se tenha um duelo armado. É disso que falo: a essência dos filmes de faroeste é muito simples, sem ser simplória. No western, o silêncio tem o mesmo peso do diálogo, e é justamente quando as personagens se calam que o pior acontece. O homem do faroeste não conversa muito, mas quando abre a boca diz exatamente o que quer dizer, sem meias palavras e sem mal entendidos.

Os que não gostam dos filmes de faroeste geralmente argumentam em favor de seu posicionamento o fato de as películas do gênero serem muito repetitivas. Concordo em parte. É fato que por diversas vezes, em diferentes filmes, algumas passagens assemelham-se, como, por exemplo, os sempre presentes duelos no meio da rua ou o close nos olhos das personagens nos momentos de maior tensão. Mas isso não é ruim, qual o problema em se repetir uma fórmula de sucesso? As coisas se repetem no western, mas têm um propósito, não é a repetição por ela mesma. A valorização da expressão facial num momento que precede um conflito sangrento (aquela velha câmera fechada na face de cada pistoleiro) é fundamental para captar o estado de espírito de cada personagem. É por meio deste recurso que se identifica, por exemplo, medo, confiança e desejo de vingança.





Muitos outros pontos poderiam ser abordados acerca do western, como a importância da figura feminina na trama, a câmera pouco inventiva mas sempre eficiente, o código de conduta do velho oeste e a trilha sonora. Prefiro, entretanto, encerar por aqui para não alongar por demais a postagem e torna-la cansativa.


É isso. Instrução acadêmica, beleza, dinheiro e diplomacia valem quase nada no faroeste. Num gênero em que o nome das personagens (incluindo o protagonista) pouco importa e cada um responde por seus próprios atos, o que vale é a lei da pistola, de acordo com a qual a vida de um homem depende unicamente da rapidez com que ele saca a arma do coldre e a dispara. No velho oeste cada qual vale quanto pesa.


O Polvo,

Que pode sacar até oito armas de uma só vez.


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fila

Fim de tarde ameno em Porto Alegre. Àquela data o inverno já havia se apresentado. Na entrada da igreja, enquanto o relógio da praça central não alinhava seus ponteiros em direção ao céu convocando a presença do Senhor, os fieis se aglomeravam em pequenos grupos e discutiam assuntos variados. Tudo muito limpo: cumprimentos formais, muita gentileza, gestos contidos e um ritualismo impecável. As crianças pareciam adultos reduzidos e não eram muito afeitas a brincadeiras infantis. Repetiam, na medida do possível, o comportamento dos pais.

18h. Era hora do encontro com Deus. Hora de cada qual pleitear sua vaga no time do céu. Preocupavam-se com o pós-morte. Inferno. Purgatório. Paraíso. O ritual se repetia diariamente: cânticos, leituras de trechos da bíblia e agradecimentos compunham a atmosfera. Os infantes, mesmo sem compreender bem o que faziam ali, frequentavam com assiduidade os encontros, pois os pais acreditavam que dessa forma os filhos levariam vantagem sobre aqueles que ingressassem posteriormente no caminho que leva ao céu. Uma fila. O INSS celestial, no qual quem começa a contribuir antes pode desfrutar mais cedo da certeza de ter o futuro garantido.

Do outro lado da avenida, João Carlos Moutinho, a quem a rua havia apelidado de Peroá, sempre acompanhado de um cachorro, de um velho cobertor azul marinho e de um punhado de solidão, seus únicos companheiros nas gélidas ruas de Porto Alegre, olhava desconfiado para dentro da igreja e se perguntava: “Existe vida antes da morte?”.

O Polvo,

que apesar de estar sempre disposto a furar uma fila, acredita que Deus seleciona as pessoas por meio de sorteio.