terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fila

Fim de tarde ameno em Porto Alegre. Àquela data o inverno já havia se apresentado. Na entrada da igreja, enquanto o relógio da praça central não alinhava seus ponteiros em direção ao céu convocando a presença do Senhor, os fieis se aglomeravam em pequenos grupos e discutiam assuntos variados. Tudo muito limpo: cumprimentos formais, muita gentileza, gestos contidos e um ritualismo impecável. As crianças pareciam adultos reduzidos e não eram muito afeitas a brincadeiras infantis. Repetiam, na medida do possível, o comportamento dos pais.

18h. Era hora do encontro com Deus. Hora de cada qual pleitear sua vaga no time do céu. Preocupavam-se com o pós-morte. Inferno. Purgatório. Paraíso. O ritual se repetia diariamente: cânticos, leituras de trechos da bíblia e agradecimentos compunham a atmosfera. Os infantes, mesmo sem compreender bem o que faziam ali, frequentavam com assiduidade os encontros, pois os pais acreditavam que dessa forma os filhos levariam vantagem sobre aqueles que ingressassem posteriormente no caminho que leva ao céu. Uma fila. O INSS celestial, no qual quem começa a contribuir antes pode desfrutar mais cedo da certeza de ter o futuro garantido.

Do outro lado da avenida, João Carlos Moutinho, a quem a rua havia apelidado de Peroá, sempre acompanhado de um cachorro, de um velho cobertor azul marinho e de um punhado de solidão, seus únicos companheiros nas gélidas ruas de Porto Alegre, olhava desconfiado para dentro da igreja e se perguntava: “Existe vida antes da morte?”.

O Polvo,

que apesar de estar sempre disposto a furar uma fila, acredita que Deus seleciona as pessoas por meio de sorteio.

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