sexta-feira, 27 de abril de 2012

Adilson

Adilson desafiava diariamente os postulados da física ao equilibrar-se de forma tão harmônica naquele projeto de bicicleta. Os joelhos calejados insistiam em atritar com o guidão, ao mesmo tempo em que a frouxidão do selim trazia certa dramaticidade ao pedalar do ciclista. Apesar das dificuldades não pretendia se desfazer de sua companheira. Cúmplice, melhor dizendo. Assim era Adilson, preferia se adaptar às coisas, do que adaptá-las a ele. Talvez fosse seu lema de vida.

Nunca reclamava de nada. Sempre falante, mas jamais inconveniente. Chegava sempre de forma singela, embora o ranger da maquinaria pouco azeitada de sua magrela insistisse em anuncia-lo com pompas de Chefe de Estado. Era sempre bem recebido. E o mérito era todo dele, que não aceitava recepção que não fosse a melhor possível. Recusava-se a permanecer no ambiente.

Adilson prezava o sábado. Era o dia de exibir seu coleiro e ir à feira. Jambo era o que mais comprava. O sétimo dia era tão sacro para ele que havia desenvolvido um ritual, e, segundo o cronograma, à tarde era quando proseava na rua do lixo, à espera do jogo no campo do Uberaba. E assim foi por muitos anos. Até que num sábado o último dia da semana foi também o último dia de sua vida.

"Morreu na contramão atrapalhando o sábado"

Polvo

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