domingo, 26 de agosto de 2012

Conto

A esta altura, os feirantes dobravam apressadamente as surradas lonas amarelas carcomidas pelo tempo e amontoavam os caixotes de madeira vazios sobre os velhos Fenemês, preparando-se para zarpar. Rubão, alguns outros garotos e velhas moribundas preparavam-se para disputar a xepa.

Perto da casa dele havia uma feira. Não, na verdade, não. Perto da feira havia a casa dele. É a Revolução Copernicana: para Rubão, e não há heresia nenhuma nisso, a feira é o centro do Universo, pelo menos aos domingos. 

A viela de terra batida, que mais servia para separar os barracos do que propriamente para locomoção, era por onde Rubão, espremendo-se entre cercas e muretas, buscava seu lugar ao Sol. Chegava sempre por volta de meio-dia e, já faminto, esperava, impaciente, as donas de casa da classe-média finalizarem seu tour e reabastecerem seus lares felizes com frutas frescas e legumes vistosos. Enquanto uns choram outros riem, é a lei do mundo, pensava ele.

A esta altura, os feirantes dobravam apressadamente as surradas lonas amarelas carcomidas pelo tempo e amontoavam os caixotes de madeira vazios sobre os velhos Fenemês, preparando-se para zarpar. Rubão, alguns outros garotos e velhas moribundas preparavam-se para a guerra da xepa, onde não há morte, mas apenas a expansão de várias formas, em que uma pode determinar a supressão das outras.

Espalhados pelo chão, à espera de mãos trôpegas e sofridas, tomates castigados, laranjas pisoteadas, hortaliças desprezadas e batatas. Com a agilidade de quem possui canelas finas e compridas, Rubão apressou-se, antecipou-se aos demais e recolheu, ao fim da disputa, um punhado de tomates semi putrefactos e meia sacola de batatas, o que lhe garantiria, ao menos, duas refeições. E enquanto os adversários digladiavam-se pelo resto das sobras, Rubão disparou para casa com o sorriso dos campeões estampado no rosto.

Do alto de um sobrado agonizante, um senhor de meia idade - tachado de louco pelos moradores das cercanias - que a tudo observava zelosamente, finalmente compreendeu Machado de Assis, e, após um breve suspiro, orgulhoso de si, de toda aquela epifania, arrematou: "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas"! 

O Potato

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